Quando The Leftovers estreou, escrevemos por aqui que era a série mais perturbadora dos últimos tempos, mas nem imaginávamos em qual nível da escala de perturbação a série de Damon Lindelof (Lost), baseada na obra de Tom Perrotta, produzida pela HBO, chegaria: uma análise sobre a existência humana e suas motivações que vai do sutil ao chute na cara e uma abordagem angustiante sobre o que cantarola Iris Dement em “Let The Mystery Be”, seu novo tema de abertura, “todo mundo se pergunta para onde vamos quando tudo isso acabar“.

Na verdade, a série brinca com o “e se…” todo o tempo. Não dá para ver The Leftovers e chegar à conclusão alguma, não uma que tenha todas as bases sólidas, sem deixar dúvida alguma. Na verdade, brincar com a “Verdade” é o grande objetivo da série. E, principalmente, sobre o que é “a Verdade”.

Ciência, religião ou misticismo?

Na trama, sabemos que o mundo mudou drasticamente depois dos acontecimentos do fatídico 14 de outubro, quando 5% dos seres humanos simplesmente desaparecem, sem deixar rastros e sem jamais a ciência ou a fé terem chegado a uma explicação.

A forma como tudo aconteceu e suas semelhanças com o arrebatamento dos salvos por Deus relatado na Bíblia, faz muita gente procurar nas profecias de fim dos tempos base para o que aconteceu. E isso, dentro e fora das telas, já que muitos fãs ainda discutem se foi o que teria acontecido. Mas se você é cristão, espírita, cientologista ou até mesmo, ateu, o drama dos personagens de Miracle certamente falará com você de formas diferentes, mas igualmente intensas.

Uma das primeiras consequências da partida repentina foi a necessidade de buscar portos-seguros. Algumas pessoas se uniram e decidiram vestir um “luto branco” como forma de se rebelar contra o fenômeno, protestando em um silêncio doentio, o qual na série, mostra que pode ser uma das formas mais agressivas.

leftovers

Outros se reencontraram com sua fé perdida, convergindo para – e fortalecendo – todo tipo de crença mística ou religiosa. A série mostra diferentes tipos de ceitas e cultos, que tem seu motor no sofrimento dos que foram deixados para trás. Houve até quem afirmou que é tudo coisa do demônio.

O fato é que a dúvida gerou grandes abismos em todos os que foram afetados.

As teorias

Há ainda uma parte das pessoas que acredita que o fenômeno é mensurável e provável e, quem sabe, até previsível.

Grandes mentes de todo lugar elaboram teorias matemáticas para tentar dar uma solução para um mistérios. A série cita algumas delas, como por exemplo, aquela em que algumas pessoas, em determinada posição geográfica podem ter dado o azar de estar no lugar errado na hora errada, algo como coordenadas eleitas para o fenômeno. Que, pode ser repetir.

Enquanto os cientistas, religiosos e fanáticos tentam explicar porque as pessoas foram levadas e, alimentam as teorias dos espectadores, a maior parte se esquece de que The Leftovers simplesmente não é sobre os que se foram, mas sobre os que ficaram. O título, algo como “os que foram deixados para trás” já alerta isso, mas a gente acaba ignorando, porque é assim o ser humano. A gente precisa entender o porquê.

Os fãs elaboram teorias grandiosas, mas nenhuma é 100% aceita nem mesmo por quem sempre acompanhou a série e jura entender.

Mas essa busca pode disfarçar a verdade sobre nós espectadores da série. A gente gosta mesmo de não entender, mas de viver e sentir a experiência provocada por cada episódio da série porque enquanto não entendemos, estamos sendo provocados a pensar, a refletir e a revisar conceitos e crenças impregnados em nós mesmos.

E nunca a série brincou tanto com o esotérico, o religioso e o científico, dando um nó na cabeça dos fãs. Nos recentes episódios da segunda temporada, Kevin (Justin Theroux), o perturbado protagonista da série fez uma viagem para algo que pode ser definido como um outro plano de existência cheio de simbolismos para se livrar de um “espírito zombeteiro”. Ou seria tudo um delírio de um maluco no hospício, segundo uma teoria alternativa dos fãs? Sim, muitos acreditam que toda a sequência de acontecimentos misteriosos só estaria na cabeça do ex-policial, a esta altura internado em um hospício por conta de um grande trauma, que pode ou não ter sido provocado pela partida repentina.

The Leftovers a morte de Kevin

Mas há quem prefira as explicações filosóficas e jure que a primeira abertura da série afirma que o arrebatamento bíblico é o que está por trás de todo o mistério. Ainda mais agora que a série também está mostrando ressurreições.

Mais se é isso, algo mudou com a nova abertura da série em que a canção insiste em dizer que é melhor deixar o mistério rolar?

Enquanto isso, os roteiristas e produtores parecem se alimentar dessa necessidade de buscar respostas e se divertem ao adicionar novos elementos cada vez mais espetaculares, como em um quebra-cabeças no qual achamos uma peça e quando acreditamos que está concluído, percebemos que é apenas um pedaço da extensa figura ainda a ser revelada.

Depois de uma primeira temporada vigorosa e, até um pouco melancólica, a série, que não é um campeão de audiência, precisou passar por vários ajustes, justificados na época como necessários para deixar a trama mais leve e de fácil compreensão, como uma tentativa de alavancar os números.

A segunda temporada

Mas, temos que admitir que, quando os produtores disseram que iriam mudar a série por completo era outra mentira deslavada! A trama está mais complexa do que nunca e, mesmo com os tons alegres dos acordes da nova abertura e da nem tão bucólica cidade de Miracle, The Leftovers definitivamente não veio para explicar e, sim, para provocar. Não apenas pelas tantas interrogações, muito menos pelo nus masculinos frontais (e não frontais) que tomaram conta do noticiário recente, mas pelos diferentes sentimentos que a série consegue despertar em que persiste e acompanha.

Nesta nova fase, a série ousa em misturar elementos místicos pagãos como o capítulo de estreia que demonstra uma cena ocorrida centenas de anos atrás, que possivelmente tenha tornado ou comprovado que a cidade de Miracle é sim, cenário de milagres.

A audiência

Sim, sabemos que audiência não é sinônimo de qualidade, mas por mais que doa aos fãs, temos que admitir que a HBO não é uma TV estatal sem fins lucrativos. Ela vive de audiência. Quando The Leftovers não está no ar, a emissora gargalha à toa com sua imbatível Game of Thrones nas noites de domingo, mas com The Leftovers, o cenário é crítico.

E se a série teve uma primeira temporada com audiência muito abaixo do que era esperado pela emissora, marcando média de 1 milhão e 600 mil espectadores nas exibições inéditas, todo o esforço dos roteiristas não está surtindo efeito nos números. A série vem marcando médias de apenas 640 mil espectadores nas exibições inéditas. É muito menos da metade do primeiro ano.

Todos os fãs estamos preocupados em pensar o que isso pode significar para o futuro da série, principalmente porque segunda temporada de The Leftovers consegue ser ainda mais forte e vigorosa do que a estreia.

É de longe, um dos produtos mais refinados já levados ao ar pela televisão e um eventual cancelamento seria uma grande perda para todos.

Confira o trailer das duas temporadas de The Leftovers :

lf4

  • João Paulo

    Essa serie é a melhor do ano, cada episódio consegue ser melhor que o anterior e isso nem Breaking Bad fazia, uma pena a audiencia não provar o que eu digo, mas acho que uma solução para tentar alavancar a audiencia é na proxima temporada, que não quero nem pensar que não terá, eles colocarem a serie na sequencia de GOT, entre abril e junho as 10 da noite, nesse caso TL nao seria exibida ano que vem retornando apenas em 2017, e tbm escaparia de disputar com TWD.

  • Marlos Andrey

    Realmente uma das melhores séries. Dosa bem drama e mistérios. Intensa.

  • Claudio Pereira

    Triste em saber que algo tão bom, tão grandioso e tão genial, possui tão pouca audiência!! Assisto desde a estreia da primeira temporada!! Sempre soube que tratando-se de Damon Lindelof, coisa boa poderíamos aguardar!! E deu no que deu!!!