Perturbadora. Desconcertante.

É muito difícil encontrar adjetivos diferentes para esta nova série de Damon Lindelof (Lost) e Tom Perrotta (Pecados Íntimos) exibida pela HBO tanto no Brasil como nos Estados Unidos neste último domingo.

O mote que norteia a série por si só tem elementos que provocam questionamentos e anseiam por respostas, mas respostas é basicamente o que a série não parece intencionada a nos dar. Pelo menos por agora.

Bom, vamos lá!

De uma hora para outra e sem qualquer evento natural ou físico, pessoas simplesmente evaporam. Simples assim. Somem de uma hora para outra em meio a atividades rotineiras. A cena que abre o episodio mostra uma mulher ocupada ao telefone, enquanto vai a lavanderia levar algumas roupas. Consigo leva um bebê que não para de chorar. Enquanto ela faz diversas atividades banais, a criança permanece chorando. De volta ao carro, ela continua falando ao telefone a age de forma automática. Algo do dia a dia. Coloca o bebê no banco de trás do carro, afivela o cinto e segue ao celular. Em um piscar de olhos (ou menos que isso), todo o choro histérico da criança é preenchido por apenas a voz da mulher ao fone. Ela sente falta do barulho irritante provocado pelo bebê e olha para trás, confirmando, a criança não está mais lá, então, se desespera e grita pelo filho.

O plano se abre e outra criança chama pelo pai. Um carrinho de supermercado desliza até bater em um carro parado, cujo alarme dispara. Parece claro que o tal pai acabara de sumir.

O que segue a partir daí é caos.

Milhares de ligações para a policia dão conta de desaparecimentos misteriosos e simultâneos dos mais diversos cantos, nas mais ordinárias situações. No banho, passeando com o cachorro, cochilando no sofá. Todos simplesmente deixaram de existir sem qualquer coisa que possa explicar.

Como disse: perturbador, não?

Três anos se passam. Uma manchete na televisão ilustra que um a cada 50 seres humanos naquele fatídico 14 de outubro se perderam para sempre sem que se saiba o porquê e para onde foram e, principalmente, se vão voltar.

O que não se explica ganha explicações possíveis. Como não existe precedente para tal fato na historia humana, muitos buscaram referência a um relato bíblico chamado de “O Arrebatamento da Igreja”, evento que a maioria dos cristãos já deve ter ouvido falar, que consiste basicamente em um momento futuro no qual Deus remove todos os crentes da Terra para abrir caminho para que Seu justo julgamento seja derramado durante o período da Tribulação. O Arrebatamento é descrito principalmente em I Tessalonicenses 4:13-18 e I Coríntios 15:50-54, mas curiosamente a palavra “arrebatamento” nem aparece na Bíblia.

Como fé consiste em crer sem ver, todo este acontecimento insólito retratado na série parece se encaixar muito bem à crença cristã de que os justos serão salvos e liberados das tribulações que seguirão.

A grande característica deste primeiro episódio de The Leftovers é tratar esse “arrebatamento” como uma experiência real com consequências tão profundas na sociedade que permaneceu, a ponto de transformá-la de modo devastador.

Os que não foram levados passam a se classificar em três grupos muito marcados: 1) aqueles cuja fé aumentou e que acredita que Deus estaria dando clara mensagem de que está voltando; 2) aqueles cuja fé se foi, uma vez que acreditavam que nesta oportunidade também teriam sido escolhidos; 3) aqueles que acreditam que mereceram ficar para trás e cujos compromissos com a sociedade, a moral e os limites não existem mais.

Rapidamente inúmeras seitas se multiplicam pelo mundo. A ideia é capitalizar um terror coletivo e cada um vender a sua própria e subjetiva verdade.

Este piloto apresentou muitos personagens, quase todos devastados, cansados e com suas vidas atribuladas pelo evento que os uniu.

Em se tratando de uma série do criador de Lost, até cenas completamente desconectadas um dia podem vir a fazer sentido. Neste piloto nos deparamos com alguns desses enigmas. Atitudes questionáveis que posteriormente se justificam por informações complementares que recebemos do roteiro bem amarrado.

Se você procura respostas,  é preciso ter muito cuidado e atenção às palavras do próprio Damon Lindelof: “minha série não é sobre os que se foram, mas sobre os que ficaram e a atormentadora realidade de não saber porque foram deixados para trás.”.

Volto a definir: Perturbadora. Desconcertante. E apenas começando.

The Leftovers é exibida no Brasil, aos domingos, pela HBO.

Confira o trailer:

Confira a abertura:

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