Entre 1997 e 2003, a HBO exibiu a série “Oz” (A vida é uma prisão, na versão brasileira) no qual o expectador é lançado brutalmente a experimentar a tensa relação entre dirigentes, carcereiros e os detentos do sistema prisional americano. Num produto essencialmente violento, fomos levados a conhecer os guetos e facções que definem, defendem ou condenam os homens que eram presos e levados para o regime de segurança máxima de Emerald City.

Dez anos depois, Jenji Kohan e Netflix – que está decidida a dominar o mercado on demand e criar conteúdos próprios – nos leva a outra realidade, onde as divisões étnicas, os conflitos sexuais e as drogas atuam, desta vez no universo feminino.

Aclamada pelo público e crítica, curiosamente “Orange is the New Black” é inspirada em uma história real, em que Piper Kerman relatou em seu livro homônimo sua experiência de um ano em uma prisão federal.

Com 12 indicadores ao Emmy 2014, grande prêmio da TV americana, essa comédia dramática (ou seria um drama cômico?) chegou muito perto em número de indicações do grande hit da temporada, “Game of Thrones”, da HBO.

A primeira temporada da série que possui 85% de classificações positivas no IMDB conta com 13 episódios, cuja narrativa mostra (mas não se restringe) as desventuras de Piper, esta patricinha de classe média que acaba sendo presa, após ser denunciada como parte de um esquema de tráfico internacional de drogas, ao qual acabou sendo envolvida após affair com uma importante peça do cartel, a intensa Alex Vause (Laura Prepon).

O mais curioso é que esta fase, digamos, mais aventureira de sua vida, já tinha passado quando a narrativa da série começa. Conhecemos Pìper planejando o seu casamento com o todo certinho escritor Larry Bloom (Jason Biggs) e completamente decidida a ter uma vida socialmente ajustada. Após a denúncia, Piper vê na chance de se entregar, uma forma de se redimir com seu passado nada ortodoxo. Afinal, colaborando com a justiça passaria apenas um ano detida e, para ela, um ano parece ser algo razoavelmente rápido e, depois, poderia seguir sua vidinha.

Larry, como toda a família, inicialmente se surpreende, mas acaba decidindo prestar apoio à noiva e dar força durante o período de cárcere, prometendo esperá-la.

O que parecia algo fácil se torna uma odisseia. Piper de cara ganha a animosidade de quase todas as detentas e se envolve em insólitos castigos que vão desde ser proibida de se alimentar em uma retaliação da chef da cozinha (apenas por ter criticado a qualidade da comida servida), até ter que arrumar uma “esposa de cadeia”, vivida pela impecável atriz Uzo Uduba que faz de sua Crazy Eyes uma doida, agressiva, masculinizada e engraçada detenta.

Aos poucos, a série, assim como “OZ”, nos brinda com os interessantes flashbacks que nos permitem conhecer a vida pregressa das detentas e as situações que as levaram ao sistema prisional. Sempre oscilando brilhantemente entre o humor negro e a sensibilidade refinada, Orange is the New Black é capaz de fazer rir e chorar num mesmo episódio em igual intensidade.

A comédia cínica, os relacionamentos entre as mulheres, a tensão constante pela luta por poder e o mais bacana dessa série – a relação entre a sociedade real e o microuniverso do sistema prisional, onde tomar um banho quente ou ter uma boa escova de dente pode ser tão ou mais importante do que o mais caro dos presentes, faz deste, um programa irresistível.

Mais do que tudo isso, Orange is the New Black é uma série sobre amadurecimento e adaptação, que mostra que todos nós somos produto do contexto em que estamos inseridos. Piper, a protagonista, evolui de forma respeitável, de uma desprotegida garota mimada que estava na hora errada e em má companhia, a uma mulher forte, capaz de se defender e impor respeito neste ambiente hostil.

Como disse, ela vai prender você.

O bacana é que na Netflix dá para ver todos os episódios das duas primeiras temporadas seguidos. E se ficar com o gostinho de quero mais, não se preocupe, a série já foi renovada para uma terceira temporada.

Confira o trailer: