Arrebatando os fãs do gênero e ainda conquistando cada vez mais os milhões de assinantes do portal de streaming – que se apaixonaram por Demolidor, Jessica Jones e agora pelo Luke Cage – mesmo estes, muitas vezes, até desconhecendo a origem destes heróis que remonta dos quadrinhos da Marvel. O fato é que este é o gênero do momento.

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Com seus super-poderes adquiridos através de acidentes com lixo tóxico ou de experimentos científicos de caráter duvidoso, e mesmo sendo capazes de atravessar paredes, arremessar carros ou lutar com a precisão de um ninja, o segredo do sucesso das novas narrativas está exatamente no bem desenvolvido lado humano dos protagonistas: o desejo ávido pela justiça, o combate ao crime ou ser gente do povo.

Aliás, esta é uma das características das séries de herois da Netflix. Sai de cena a pirotecnia e os vilões caricatas presentes nas séries das emissoras convencionais e se destaca a narrativa trabalhada, os aspectos humanos, as eventuais falhas de caráter e até vilões com passados que estimulam uma certa dose de compaixão.

E, talvez, neste aspecto, Luke Cage, um herói menos conhecido do grande público se consolide como um grande acerto.

A gente já tinha visto um pouco de Luke na estreia de Jessica Jones, quando se envolve com a beberrona detetive particular de Hell’s Kitchen (nos quadrinhos, os dois são um casal). O cara é muito gente boa, com origem humilde, cheio de orgulho da raça, engajado com a comunidade, nascido em um lar cristão, trabalhador, vive sem grana e até atrasa o aluguel. Além disso, ele é injustiçado. No passado, foi acusado por um crime que não cometeu, passou por maus bocados na cadeia, foi torturado e submetido a uma dolorosa experiência que acidentalmente lhe deu tais poderes. Apesar de tudo, quer apenas seguir sua vida, vivendo o hoje e focando no “daqui pra frente”.

Luke é do bem, não mata ninguém, mas enche os bandidos de porrada. Como não amar esse cara?

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A série tem uma linha extremamente popular e, se nós por aqui gostamos, ela certamente será a sensação do ano nos Estados Unidos, dadas tantas referências históricas e atuais sobre as questões raciais e sociais, crítica sobre o oportunismo político de gente que só quer se dar bem às custas dos menos favorecidos e posar de bons moços. Se não bastasse tudo isto, traz uma das melhores trilhas sonoras de todos os tempos, abusando de pérolas da música negra americana como o hip-hop, jazz, funk e R&B, nas muitas cenas no Harlem Paradise, clube que é fachada dos negócios do vilão.

A receita tão básica de sucesso deixa tudo muito mais atraente e, até nos permite desculpar alguns lapsos do roteiro. A origem dos poderes de Luke, por exemplo, só é contada lá no quarto episódio e o confuso endeusamento de Bob, o barbeiro do Harlem, vendido como um paladino da comunidade e alçado a grande pivô da batalha entre Luke e seus arqui-inimigos, mas cujas grandes ações são superficialmente citadas.

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Em muitos momentos da série, você vai sorrir com a piadinhas “bregas” de Luke – vai entender que se o negão te convidar para tomar um café pode ser perigoso (ou não, dependendo do seu gosto), vai boiar com algumas piadinhas de gueto, vai se perguntar quando é que o Chris, Rochelle e companhia vão aparecer (ok, é só uma brincadeira), vai também se emocionar com o sofrimento dele e ainda ficar meio em dúvida sobre quem deve ser o par romântico definitivo do herói, já que o cara é um pegador.

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Esse talvez tenha sido um dos motivos de não trazer Jessica Jones para esta primeira aventura solo de Cage.

E vai ter até algum momento que você pode se pegar sentindo um pouco de pena dos vilões. Calma que passa logo.

Temos uma construção inteligente do vilão psicopata de nome engraçado – Boca de Algodão – cuja construção do caráter é vista nos bons flashbacks da série, humanizando o personagem e que, numa boa sacada dos roteiristas, aos poucos vai revelando que não é exatamente o maior perigo para o homem indestrutível da Marvel.

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E a força das atuações do elenco, majoritariamente negro, só abrilhanta a trama, protagonizada por Mike Colter como Luke e que tem entre seus rivais Mahersala Ali (Boca de Algodão) e Alfre Woodard (Black Mariah) e entre seus aliados, a enfermeira Claire (Rosario Dawson) – vista em todas as séries da Marvel na Netflix- mas que ganha um destaque merecido nesta.

Muito tem-se discutido nos fóruns e sites especializados se Luke Cage não merecia ser considerada a melhor série da Netflix até aqui, mas isto é irrelevante. Ao ver os episódios da série, o mais bacana é pensar que um dia, vamos ver todos estes grandes heróis lutando juntos para combater o crime naquela que, certamente, será a maior aventura até então: Os Defensores, minissérie prevista para 2017.

E que venham Punho de Ferro e Justiceiro para enriquecer e expandir o universo Marvel, provando que não precisa de um martelo mágico, um monstro verde ou um homem de ferro e um orçamento megalomaníaco para botar pra quebrar.

Confira o trailer de Luke Cage: