Que Doroty e seu cachorrinho Totó foram levados por um tornado ao distante mundo de Oz e, que para voltar pra casa, se aventuraram pela estrada de tijolos amarelos, acompanhados do desmiolado Espantalho, de um Homem de Lata sem coração e de um Leão covarde, isso todo mundo já sabe.

Mas e se Oz fosse um planeta distante com duas luas, assombrado por uma profecia apocalíptica em que uma besta viria dos céus para tudo destruir? E se Doroty acabasse indo para cama com um Espantalho todo sarado que, ainda por cima, é marido da mais impiedosa das bruxas cardinais? E se em meio a tudo isto, o Mágico fosse apenas um obcecado tirano, capaz de matar os verdadeiros reis da Cidade das Esmeraldas para comandar um reino com mãos de ferro, sobrepondo a ciência à magia?

Adicione a isso, duelos de espadas, guerras pirotécnicas entre bruxas, locações que não perdem para as grandes cidades de Westeros (continente fictício onde se passa a trama épica de Game of Thones, da HBO), questões de identidade de gênero e complexas discussões sobre inteligência artificial. Pronto: esta é a receita da sombria, emocionante e surpreendente nova série da NBC, Emerald City – Cidade das Esmeraldas, idealizada por Matthew Arnold e Josh Friedman.

À primeira vista, você até pode torcer o nariz e achar que é para criança, mas não é. Nem mesmo tem a candura de Once Upon a Time. A trama tem enredo consistente e não hesita em mostrar violência, hipocrisia, traição e sexo.

Até uma polêmica cena de masturbação foi exibida em plena TV aberta americana.

A trama tem uma linha de partida parecida com a obra de L. Frank Baum. Doroty realmente é levada para Oz por um tornado, que na verdade esconde um portal interdimensional. As semelhanças são apenas ponto de partida. Nesta versão, Doroty (Adria Arjona) não é uma criança, mas uma enfermeira, filha adotiva de um casal amoroso, mas dividida entre buscar informações sobre seu passado, afinal fora abandonada por sua mãe, ainda pequena.

Totó não é seu cachorro, mas um cão policial que acaba sendo levado junto com a moça para o mundo de Oz, durante a estranha tempestade.

Em Oz, Doroty acaba encontrando um homem desmemoriado, crucificado, a ponto de morrer. Ela o salva, usando seus dotes de enfermagem e a química entre o casal é imediata e evidente. Você vai shippar fortemente este casal, anote aí. Disposto a recuperar sua memória e sua história, Lucas (Oliver Jackson-Cohen), batizado assim por Doroty, passa a acompanhá-la na jornada em busca do grande Mágico de Oz (Vincent D’Onofrio). Lapsos de memória começam a revelar que o rapaz não era apenas um inocente injustamente torturado, mas possuía vocação para a violência e manejava muito bem a espada que empunhava e continha o selo real da Cidade das Esmeraldas. Restava pouco para confirmarmos que ele não seria exatamente um mocinho tradicional.

 

A estrada amarela, na verdade não é de tijolos, mas um caminho tingido pelo pólem desprendido dos enormes campos de papoula, matéria-prima do ópio, um potente narcótico. No caminho, Doroty acaba cruzando com uma das bruxas cardinais.

Se, na história infantil, a casa de Doroty também é levada para Oz e cai em cima de uma das bruxas más, na versão da NBC, a bruxa acaba morta no confronto com Doroty, porém pela curiosidade a respeito de um estranho objeto que a garota portava, uma arma de fogo. Acidentalmente, a bruxa atira em sua própria cabeça e Doroty acaba absorvendo seus poderes controlados por uma jóia em formato de luva.

Há outras duas poderosas bruxas em Oz. A complexidade dos personagens é riquíssima. Ambas irmãs cardinais. Uma viciada, beberrona e dona de bordel, mas com grande coração e senso de justiça. Outra dona de um orfanato, quase um convento, mas perversa. A malvada só se veste de branco e a justa, como uma meretriz. A grande vilã da trama é Glinda (Joely Richardson), uma das bruxas cardinais que jamais aceitou o fato de a magia ser banida de Oz pelo Mágico e ela própria trama uma vingança particular para devolver o poder sobre Oz, já que considera sua única irmã, West (Ana Ularu, brilhante neste papel), dona de um bordel, beberrona, uma desonra para a classe das bruxas.

A notícia de que uma das bruxas mais poderosas teria morrido pelas mãos de uma forasteira que veio dos céus, acaba repercutindo nos quadro cantos de Oz e Doroty passa a ser caçada tanto pelas outras como pelo próprio falso Mágico, que teme ser uma nova ameaça a seu trono usurpado.

Paralelos à trama principal, interessantes personagens tratam de seguir sua própria jornada: Tip (Jordan Loughran), um garoto, mantido em cárcere privado por uma curandeira sob o pretexto de ter uma doença grave, acaba se tornando uma mulher, assim que consegue fugir de seu cativeiro. Ele rejeita o novo corpo, pois é homem desde pequeno e ainda começa a perceber olhares interessados de seu amigo Jack (Gerran Howell). Em uma discussão mais acalorada, Tip empurra Jack de um mezanino e acredita ter matado o amigo.

Jack é resgatado quase sem vida por Jane (Gina McKee), uma cientista de um outro reino chamado Ev. E Jane o transforma em uma criatura metade homem, meta robô, cuja vida é sustentada por um coração artificial. Jack acaba nas graças da misteriosa princesa Langwidere (Stefanie Martini) de Ev e vira seu mascote, antes de ser algo mais.

A princesa que nunca deixa de usar uma máscara como em um eterno carnaval, é um dos personagens mais interessantes e a revelação sobre o porquê do adereço é das mais interessantes e surpreendentes.

Emerald City está em sua primeira temporada, com apenas 10 episódios e é merecedora de todo reconhecimento quer pelo roteiro engenhoso, pelos bons efeitos visual, considerando-se que a NBC é TV aberta nos Estados Unidos, mas pela ousadia de atualizar um clássico considerado um dos mais cândidos da literatura infantil.

Confira o trailer: