Aguardada tanto por ser a primeira série brasileira que seria levada a todo o planeta no catálogo da Netflix, como pelo fato de ser uma produção de ficção científica, algo realmente raro na dramaturgia nacional, 3% já tem todos os seus oito episódios disponibilizados para os assinantes do portal.

Para quem decidiu encarar mais uma maratona oferecida pela Netflix, encontrou uma esforçada tentativa de mostrar um futuro distópico com ares tupiniquins, ainda que hajam indiscutíveis semelhanças ou pelo menos, referências em tramas internacionais do gênero como Jogos Vorazes e Maze Runner, filmes aos quais a imprensa internacional também compara a série brasileira.

A direção do novo seriado é assinada por Cesar Charlone, o mesmo de Cidade de Deus e Ensaio sobre a Cegueira.

O elenco encabeçado principalmente por jovens atores, como Bianca Comparato, Michel Gomes, Rodolfo Valente e Vaneza Oliveira é, sem dúvida, um dos pontos de maior inconstância da série. Os mesmos jovens conseguem emocionar e decepcionar em diferentes cenas. Porém, não se deve crucificar apenas os atores, uma vez que o texto também oscila igual. É muito difícil exigir que alguém não soe artificial em frases como “ele parece muito vivaz nesta foto para quem está morto“.

Curiosamente os principais críticos americanos apontam apenas o baixo orçamento como o maior defeito da série, já que é difícil crer numa sociedade futurista com efeitos simplórios, mas são muito elogiosos com a atuação e até mesmo com o roteiro.

Bem, como a Netflix permite, você pode arriscar ver a série dublada em inglês e com legendas em português e pode até se surpreender com o seu preconceito, afinal serão os mesmo atores apenas falando na língua na qual estamos acostumados a ver ficção científica.

No enredo, em um Brasil situado a uns 100 anos futuro, pouca coisa melhorou. A sociedade em geral está entregue à miséria e à falta de recursos básicos como alimentação e saúde. O continente é apresentado como uma grande favela, cheia de lixo, farrapos, construções precárias, violência e abandono. Porém, as pessoas ainda podem sonhar com uma vida melhor. Maralto, uma cidade utópica, construída muitos quilômetros mar a fora, se torna a grande possibilidade de uma vida melhor para todo jovem que completa 20 anos. Lá, a promessa é de que não há injustiça e todos são realmente iguais, estão lá por mérito e por isso, serão recompensados com fartura e felicidade.

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Ao chegar à idade, eles se despedem das família, a quem, se passarem, jamais verão novamente e colocam em jogo todas as suas fichas para impressionar os avaliadores que conduzem o processo de seleção, no qual, apenas 3% passarão. Muitos jovens ensaiam desde pequenos o que dizer e como se comportar quando chegar a hora.

Se somente 3% terão direito ao paraíso, outros 97% continuarão condenados às mazelas do continente. E, exatamente, pela injustiça enxergada no processo é que uma misteriosa facção chamada “A Causa” se une para tentar destruí-lo, idealmente, de dentro para fora. Por isto, recruta jovens que possam se passar por candidatos para se infiltrarem em Maralto.

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Este processo, baseado fortemente na meritocracia, consiste em avaliações físicas e psicológicas, algumas bem extremas, que prometem separar o joio do trigo, não importa quais sejam as consequências que podem, inclusive, significar a morte de alguns dos jovens candidatos. Em Maralto, um conselho de anciões acompanha à distância o processo, comandado por Ezequiel (João Miguel), o supervisor do processo. Um deles, o conselheiro Matheus (Ségio Mamberti), que outrora teria sido responsável pelo processo, aparentemente está desconfiado de que as ações de seu sucessor, podem não ser as mais racionais, colocando em risco não só os candidatos como até mesmo, o futuro da sociedade utópica de Maralto. Matheus decide instaurar uma espécie de auditoria, que tem como único fim descobrir algo que desabone Ezequiel.

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Neste cenário, o argumento da série apresenta visões muito distintas sobre o que é ou não justo, o que é ou não mérito e muitas personagens vão jogar com estas diferentes visões e que, inclusive, farão o espectador refletir e, em algumas reviravoltas da série, até questionar suas próprias convicções.

Se o argumento é muito bom, o desenvolvimento do roteiro não foi tão feliz. Há muitas pontas soltas, explicações forçadas, mudanças de atitude inconsistentes ou, pelo menos, prematuras. Mesmo dispondo de 8 longos episódios, a série consegue ser superficial em alguns pontos e repetitiva em tantos outros.

Sem jamais mostrar a vida em Maralto, a série guarda um trunfo para uma eventual segunda temporada, pois os episódios gradativamente vão deixando pistas e possibilidades interessantes, inclusive, no que se refere à possibilidade de colapsar toda essa sociedade supostamente utópica e feliz.

3% tem erros, alguns grosseiros, mas é um elogiável passo para o futuro da produção nacional de ficção científica.

Confira o trailer: